O Relógio

 



O tempo que se vive não é curto, nem é longo. Depende sempre do que temos para dar e receber enquanto por cá andarmos. Há momentos em que é preciso partir, há outros em que é urgente permanecer. No meio de tudo isto fica a vida.

Nesta semana perdemos Manuel Cargaleiro e Fausto Bordalo Dias. Estes dois desaparecimentos significam não contarmos mais com o universo que cada um continuava a acrescentar ao nosso.
Cargaleiro, através da sua obra, deixou-nos um conjunto de sentimentos, que vão do belo à esperança. Aqueles que viram nos seus azulejos as mantas das avós, quando passavam numa das principais estações de metro de Paris, olhando aquelas paredes como se elas vingassem a menoridade fascista de gente sem alma que olha de uma desmedida altura as vidas dos que migram em busca de dignidade. Cargaleiro vingou as avós dos operários, das porteiras, dos exilados, enfim dos que trabalhando longe sabem que nem a riqueza, nem a arte substituem as avós que ficaram em terra e lhes não saem do peito. Vingou-as atirando luz sobre a escuridão do medo.

Fausto não voltará a compor. Temos os discos, temos o testemunho, discreto e contundente, sereno e inquietante. Temos a portugalidade que cantou num retrato da epopeia dos simples. Temos as suas canções de amor. Poderemos expressar nelas as nossas melhores promessas, olhar as paisagens e através delas deixar as nossas mais sinceras perguntas. Mas o tempo esgotou-se e resta-nos a fortuna tão rica da pobreza de o não termos mais.

O tempo sempre me inquietou. Cada dia é uma síntese e uma mistura de idades. Em nossa casa, o meu pai era quem dava corda aos relógios dos vários compartimentos. Quando ele morreu, os relógios pararam todos. Nunca os acertei. Esperei pela hora em que pararam e só aí lhes dei corda, para que eles nunca deixassem de ter o seu gesto marcando o tempo. E sabe-me bem esperar por essa hora quando voltam a parar e só aí dar-lhes corda de novo.
No meu novo livro morará um poema sobre isto:

RELÓGIO

Ao querer saber do tempo, esperava que viesses
e enchesses de novo a cidade
e o seu o rumor a árvores de verão,
a conversas noite dentro,
a improváveis destinos,
a inimagináveis madrugadas.
O compassar do relógio da sala
conta as horas em que o mundo
se privou já do teu corpo,
cantando um fado triste e muito belo.
 
Não será o relógio, talvez sejas tu
que não paras de cantar no meu coração.
O relógio apenas conta o tempo
e me demonstra o abismo.

 


Comentários

Mensagens populares