EUNICE
Em junho de 1989, apanhámos o expresso para o Algarve. Estávamos a intercalar a nossa lua-de-mel com os meus exames de Direito. Nos lugares à nossa frente viajavam Eunice Muñoz e uma sua neta.
À nossa frente tínhamos um cometa, um universo inteiro que nos havia entrado pelo texto de Brecht, em Mãe Coragem, e que, a partir dessa sua interpretação, nunca mais o teatro nos foi a mesma coisa. Eunice tinha-nos dado tudo. Entregou-nos a chave como uma mãe entrega a chave de casa a um filho. A partir dali estávamos por nossa conta na assistência e sobretudo na vivência do que o olhar espectador pode fazer a um texto e à íntima construção que com os atores vai formando no momento que é sempre único de um espetáculo.
Eunice partilhava umas cenouras cruas com a sua neta. E lá seguiam viagem conversando e rindo, como conversam e riem as avós e as netas deste mundo. Nós íamos ali e creio que, pela única vez na vida, nem olhamos bem a planície alentejana que tanto apreciamos. Tínhamos Eunice a ser avó à nossa frente.
Há dias, li um texto da sua neta Lídia Muñoz que referia “(…) A Eunice Muñoz é de um país mas esta Eunice que eu perdi é só minha(…)”. Este texto trouxe-me à memória a viagem de expresso para o Algarve e voltou a trazer-me a grandeza de todas as nossas passagens e pelo estar vivo com os nossos outros e por tudo que o coração não interrompe e tão livremente sabe desregrar das leis do tempo.



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