OS CINEMAS DAS NOSSAS VIDAS
Os filmes reservam uma parte do que acrescentámos à formação do nosso ilimitado. Poderíamos afirmar o mesmo sobre todas as artes, mas no cinema mergulhamos num universo especial e íntimo que nos confronta com a multiplicidade de expressões que compõem um filme.
As salas de cinema são uma espécie de praças onde nos formamos e a nossa cadeira é uma casa onde só cabemos nós e o ilimitado que convidamos para partilhar a vida depois da sessão.
O primeiro filme a que assisti foi ainda o Teatro-cinema de Fafe. Era um filme de animação, na sala que abriu portas em 1924. Mais tarde, em finais na década de 70 frequentei o S Mamede, em Guimarães, uma sala moderna de uns familiares nossos. No verão, o Póvoa Cine, o Garett e o Santa Clara, na Póvoa de Varzim.
Entrado na idade de poder ver filmes para maiores de 14, tinha a rotina no Estúdio Fénix, a moderna sala que sucedeu ao clássico salão dos Bombeiros, onde passavam as novidades e que abarcava todos os géneros, menos o do circuito independente, e até o cinema porno tinha lugar na sessão da meia noite.
Poucos anos depois, a entrada para o Cineclube de Fafe e a chegada de um outro tempo: o das grandes perguntas. No Cineclube passava o cinema do circuito independente, as sessões temáticas, as grandes obras e as conversas em torno dos filmes. Os maiores realizadores portugueses do século XX estiveram aí a partilhar ideias e experiências com os fafenses. Com eles vieram alguns dos seus atores de referência. Manoel de Oliveira vinha muito e até foi atribuído o seu nome à nova sala de cinema.
Quando fui estudar para Lisboa, ainda vi alguns filmes no Condes e no São Jorge. Visitei o Éden antes de fechar de vez e acabei, como a maioria, nas salas dos centros comerciais onde se perdera quase tudo, menos o filme. Sim, porque uma coisa é o filme, outra é o cinema.
Nos dias de hoje, sublinho as sobrevivências, em Lisboa, do S Jorge, do Ideal e da Cinemateca e, no Porto, do Trindade e do maravilhoso Batalha.
Vou sempre ao cinema com a sensação de que nada ficará igual à saída, vou sempre com um espírito inaugural. Afinal, na maioria das vezes vamos para inaugurar um filme em nós mesmos e isso é extraordinário. Ver um filme no cinema é um cerimonial bom, uma festa a que temos direito. Vamos para ver os grandes filmes, os outros podemos ver na Televisão. Vamos ao cinema para ver como ficamos tão bem às escuras, iluminados apenas pelo brilho do ecrã e dos nossos olhos quando não falhamos a escolha. Vamo-nos ver ao cinema e isso é tanto.



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