Florbela

 



Quando me questionam acerca da data em que assumi a escrita como ofício, atiro para a década de 80, após dois sobressaltos poéticos, a leitura de Florbela e a de José Gomes Ferreira. A Florbela pela forma como me ensinou o inevitável despudor do sentir e de o revelar num mesmo grau de liberdade. O José Gomes Ferreira pela diária urgência de não deixar nada por dizer e por viver tão visível nesses três monumentos que são os três volumes da obra «Poeta Militante».

Há dias, fomos a Vila Viçosa passear. Passear sem agenda, sem compromisso de absolutamente nada. Apenas a ideia de que estávamos na terra de Florbela ia ficando presente. Conseguimos estacionamento junto ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição - Padroeira de Portugal. Mesmo ao lado fica o cemitério que eu quis ir visitar, não porque me lembrasse da Florbela, mas para apreciar os jazigos e mausoléus que, em mármore, ali proliferam. Logo à entrada está o seu jazigo. Naquele instante, criou-se uma ambiência com que não contava. Aquele lado físico, aquela proximidade material fez-me uma espécie de ser inicial e a ela também. Estávamos ambos no começo do mundo. No meu começo de mundo. Ali jaziam os seus restos mortais, o seu corpo, e eu estava ali com os meus 15 anos a pensar que nunca esperei que pudéssemos alguma vez estar tão próximos. Agradeci-lhe a graça da minha primeira vontade de escrever, como em silêncio se reza e agradece um milagre a uma divindade que adotamos. Saí deste estado, empurrado por uma placa em mármore negro que uns admiradores lá colocaram, com dizeres banais e de que só a intenção se salva, pois destrói por completo a beleza da brancura do mármore que o edifica. 

No topo da avenida Bento de Jesus Caraça está o seu busto rodeado de laranjeiras. Parámos um pouco por ali, olhando-a. Florbela voltava ao domínio dos deuses. Já era um busto e a memória de todos os seus poemas, espalhados pelo coração de todos os lugares que com eles se cruzam. Olhando o busto, ainda me apeteceu perguntar-lhe como é que foi a vida por ali, mas creio adivinhar a resposta: 

- Acho que não nos conhecemos de lado nenhum para começarmos uma conversa dessas. 

Seguimos a pé em direção à Praça da República e depois regressámos. À chegada ao carro, encontrámos uma velha amiga, com quem já não nos cruzávamos há quase uma década. Acabara de chegar a Vila Viçosa para ali ficar a morar. No dia seguinte seria o seu primeiro dia de trabalho na Casa dedicada a Florbela. Sorrimos e seguimos viagem. Há passeios que nos fazem não sair do lugar e, mesmo assim, nos revelam que a lonjura e a profundeza são um despudor tão belo quanto a liberdade ou o amor que escolhemos para ofício, sim como o de escrever.

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