O nosso dia
Começava junho. As terras eram mais longe do que hoje são. Era dia da criança e os meus pais ligavam muito à celebração do dia.
Na década de 70, eu vivi a minha meninice. Tinha um especial gosto num restaurante, em Braga, que era decorado nas suas paredes com azulejos que figuravam imagens de animais. Quando lá íamos, sem ser no dia da criança , fixava-me naqueles azulejos e imaginava as histórias por detrás daqueles pequenos cenários que um azulejo poderia sintetizar. Daí que quando me perguntavam:
- Miguel, hoje é o teu dia, o queres fazer?
Eu respondia que seria bom irmos a Braga jantar naquele lugar, onde nas paredes havia histórias e pessoas simpáticas a servir, tão simpáticas que me colocavam uma almofada redonda em napa vermelha para eu chegar melhor à mesa. Em síntese: havia histórias e gente boa.
Passadas décadas, ainda é isso que mais valorizo na existência, haver histórias e gente boa. Nunca consegui sair disto e de pedir à vida que algo assim me vá chegando ao longo do tempo.
A riqueza da nossa passagem por este mundo não será muito mais: ter feito o caminho com muito para contar e com a saudade boa de tantos que nos deram infinitamente a razão da memória.
Hoje, que estive em Braga, a dar um abraço a uns amigos que se despediam de seu pai, voltou-me à memória esta imagem e sei bem que, na verdade, será também algo parecido a fortuna que lhes resta nos tempos futuros.
Não pude ir jantar ao velho restaurante, mas não deixou de estar no meu eterno coração uma das paisagens mais belas que conheci.
Hoje, é o dia da criança e os meus pais, que serão tão infinitos quanto essa miragem, têm a minha gratidão eterna por este tipo de fortuna que me entregaram.
Privilégio é mesmo isto, ser criança e ter pais que nos dão a possibilidade de construirmos um para sempre nas histórias que escolhemos para viver.



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