A Loja
A loja guardava-nos o tempo entre gerações.
Marcava o coração da praça
e nela entravam as vozes e os passos
que nos eram corpo e até regaço.
Desdobrávamos a fazenda para ser,
no inverno dos outros,
a viagem partilhada e a quentura
a fazer-se casa
e a compassar a ternura.
A perfumaria levaria as histórias
ao limite da fantasia
e do que teriam para seduzir
essas mulheres que solitárias vinham
e encontravam no perfume
a liberdade que não tinham.
Entre lenços talvez tenhamos sido
dos homens o abrigo das lágrimas,
o mais sincero objeto,
a sua verdade mais funda
em velado afeto.
Seguiu no tempo a loja.
É hoje fio de Ariadne a tricotar a idade
e a ser rasto de infinito.
Rasto para o sentido não perder
e pelo amor conservar seu grito.



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