As feiras.

 




As feiras guardam uma infinidade de histórias. Histórias de encontros, de zaragatas, de marralhar, de chegar cedo, de ouvir as suas sonoridades, entre tantas outras coisas. Há muito que são lugares de dignidade. Pessoas de todas as classes por ali se encontram e, graças à melhoria da qualidade do que por lá se vende a preços baixos, faz com que a aparência dos que menos têm na carteira se assemelhe aos que mais podem. Só por isso, por facilitar o acesso a coisas boas a quem só ali as pode adquirir, já valeria o nosso respeito. Só lamento que, pelo meio, ainda se façam aquelas tropelias que não servem a ninguém de colocar imitações de logótipos de marcas famosas. Toda a gente distingue um jacaré… Não seria mais sensato, estético e até mais dignificante não colocar nada? Na minha leitura, esses abusos só sublinham a diferença de classes, onde a mesma poderia ser quase ignorada.

Os produtos frescos e os fumados das feiras são reflexos da produção de baixa escala, o que, na maioria das vezes, favorece a qualidade, além de contribuir para que os pequenos produtores tenham o seu espaço. Algum regionalismo que se não encontra nos supermercados, e às vezes nem em lojas gourmet, são encontrados nas nossas feiras. As feiras são tão imbatíveis que até os endinheirados a elas se rendem.

Há uma feira, no nordeste brasileiro, em Campina Grande que é um monumento. Há de tudo. Uma vez atravessei-a de um lado ao outro e pude constatar o que Moncho Rodriguez me havia contado:

- Nesta feira, um homem entra solitário, arranja noiva, faz despedida de solteiro, compra enxoval, mobília e até pode casar na Igreja que fica na outra extremidade.

A diversidade da feira de Campina é tão grande que há efetivamente de tudo. Eu trouxe de lá uma sertã em ferro com cabo de madeira onde servimos a farofa em dias de feijão preto. Gostamos de ter objetos que nos marcam os lugares.

Nessa tarde, em Campina Grande, conheci pela mão do Moncho a grande dramaturga Lourdes Ramalho, que escreveu até ao último dos seus dias, que contaram quase 100 anos, e que nos deixou mais de uma centena de obras. Em sua casa, sentados à mesa onde almoçámos, com vista para o seu jardim, que, além árvores e flores, também tinha umas aves exóticas, falávamos da sua peça «A Feira», uma relíquia da cultura popular do nordeste.

A memória tem destes tesouros. Ainda conservo a voz de Lourdes Ramalho a falar com o Moncho como se fosse seu filho, a voz do Moncho em resposta como se para uma mãe falasse, o cheiro da comida, a sonoridade dos pássaros, a sensação fresca das sombras em tardes de calor nordestino. Ambos partiram já da sua magnífica passagem terrestre. A casa de Lourdes Ramalho e a Feira estão do outro lado do mar e sei que nunca mais aí poderei entrar. Mas, há a memória. Aí se guarda o essencial, o que escolhemos para ser infinito, o que o dinheiro não compra, o que o tempo quase não gasta, embora transforme. Há essa riqueza que conservámos por termos vivido, por termos estado em partilha com os outros. E como o viver não é um ofício solitário deveremos estar gratos. E estar grato é uma riqueza, mas é também a melhor ferramenta que temos para inventar o futuro e seguir em frente com a nossa melhor reserva de um profundo sorriso.

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