O paraíso.
Chamava-se Fadista. Era um cão rafeiro, de pelo comprido, claro, e de porte médio. O mais bonito cão de uma matilha que duas mulheres, mãe e filha, que viviam numa espelunca atrás do jardim do Calvário, cuidavam.
Eu morava no Largo, por cima do Talho Novo. Num final de manhã, o Sr Abreu, que era funcionário do Talho, fechou a porta do lado direito e o Fadista deve ter entrado pela do lado esquerdo, sem que ele o tivesse visto.
O estabelecimento só reabriria perto das três. Quando olhei para dentro apercebi-me do sucedido. Sorri, imaginando a felicidade que o Fadista sentiu. Um cão pobre e esfomeado fechado num talho deverá sentir algo de muito próximo ao que um bom crente sentirá às portas do paraíso.
Eu assisti àquele quadro e logo a seguir preocupei-me com o que poderia suceder ao cão quando o Sr Abreu e os colegas regressassem.
Antes das três fui para a porta do talho. O Fadista estava com um ar satisfeito e deitou-se a dormir entre os raios de sol que ali batiam.
Quando o Sr Abreu regressou e viu o cão do lado de dentro inquietou-se.
- Ele não fez nada que eu estive aqui a vigiar.
- Isso é o que já vamos ver…
O susto de ambos foi tal, que um correu para o balcão e o outro fugiu porta fora.
- Só remexeu as aparas…graças a Deus.
disse aliviado o Sr Abreu.
Passados instantes saí e quando olhei em direção ao jardim, lá ia o Fadista para o seu lugar de sempre ter com as pobres donas que o cuidavam. Ia com a barriga cheia das aparas que comera, mas muito longe de imaginar que em cima do balcão estariam os bifes do lombo.
Ao longo da vida experimentámos algumas vezes aquela sensação de que mesmo estando no paraíso é fundamental conhecê-lo e saber o que realmente nos pode tornar felizes aí, caso contrário só as aparas se alcançam.
Contudo, não me restam dúvidas de que mesmo que o Fadista soubesse onde estavam os bifes do lombo, também saberia o quão momentâneo e parcial aquele paraíso seria. Daí que ele estivesse certo quando decidiu caminhar em direção a casa. Aí sim, conhecia todo o infinito que um paraíso pode ter através do amor que as pobres mulheres lhe davam, na única riqueza que também a elas nunca havia faltado e a única visão que do paraíso terão alcançado nesta vida.



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