A sonoridade do tempo.



Lembro-me de ser pequeno e de se ler à noite antes de dormir. A minha mãe lia em voz alta algumas páginas de romance, talvez para me incentivar a gostar de livros. 

A Vila tinha um silêncio como nunca mais voltou a ter com o progresso. Daí que se ouvissem tão bem as palavras lidas e que essas se misturassem, de quando em vez , com a sonoridade de um ou outro carro que atravessava o Largo pela noite. 

Deitávamo-nos muito cedo no inverno. Por volta das nove e meia, íamos para o quarto e, pouco tempo depois, adormecia. Os tempos eram longos. Deitar cedo e cedo erguer. 

As manhãs demoravam-se até que o avô regressasse da loja e pudéssemos almoçar. As tardes duravam ainda mais. Os miúdos do Largo não eram muitos, mas éramos todos amigos. Divertíamo-nos entre nós e entre os adultos que nos davam confiança. 

As conversas tinham um pausado que se perdeu. Os lugares que ocupávamos na casa concentravam uma territorialidade definida e que se confundia com quem os detinha. O quarto do avô era muito igual a ele, tinha grande dimensão, tanto assim que após a sua morte foi ali montada a sala de estar e de jantar. Era um quarto meticulosamente arrumado e com ordem. A escrivaninha estava organizada ao milímetro, as canetas tinham sequência definida no suporte, a gaveta dos selos, o pisa-papéis e até a coleção de carteiras de fósforos, com imagens de pelourinhos de Portugal e de gatos, tinha ordenação.

O avô era meticuloso e tudo ali o era também. Entrar naquele espaço era como se lhe entrássemos na alma. 

O quarto tinha uma longa varanda para o Largo e, aí perto, estava um cadeirão junto ao qual eu comecei a ler em voz alta as primeiras histórias nuns livros em formato mínimo, agrafados, que se compravam nos quiosques e que reproduziam de forma resumida os clássicos para a infância, os livros dos continhos, como lhes chamávamos. 

No mesmo local, sentava-me ao lado do avô a ouvir a BBC de Londres, em onda curta, num rádio que ainda conservo no meu escritório. 

Do lado de fora ouviam-se algumas sonoridades que também desapareceram, o chamar dos ardinas e das peixeiras, as conversas entre quintais nas traseiras, um rádio, em dias de verão, quando as janelas das casas se abriam para entrar a fresca da manhã e os berros de alguém que se pegava e redundava em pancadaria.

Hoje, apeteceu-me esta viagem a esse tempo, não por qualquer juízo de valor, mas apenas porque sabe bem retomar o tempo nas suas múltiplas dimensões e porque nas nossas tantas mortes sabemos sempre que algo nos assemelha aos deuses nesta capacidade de ressuscitar para o que nos é essencial: voltar ao que fomos capazes de amar e aí fundar a mais bela vertigem do que o futuro seria. 


Comentários

Anónimo disse…
É importante, de vez enquando, voltar atrás e refletir. A infância marca-nos para sempre! Abraço

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