Bolinhos de bacalhau
A minha tia Alice confecionava os melhores bolinhos de bacalhau do mundo. A Glória aprendeu com ela e é uma boa sucessora nessa arte.
Os bolinhos de bacalhau são uma invenção magnífica. Aprendi a comê-los de várias formas e até metidos no pão, graças aos carteiros de Fafe que, ao final da tarde, lanchavam na Julinha da Ribeira e me davam um, acompanhado com um golinho de vinho verde branco, sem que o meu pai soubesse, dados os meus seis anos. Eram mais os que lá lanchavam, mas recordo dois, o Sr Belarmino e o Sr Aristides. Homens bons, respeitados e afetuosos que guardo com admiração e saudade.
Quando era miúdo havia cultura de rua e na rua arranjávamos forma de sermos uma espécie de família. Isso era fantástico e nunca chegou a existir substituto pedagógico para tal. Aprendi infinitamente na rua.
Voltando aos bolinhos de bacalhau, recordo uns muito maus que se serviam em Lisboa, no meu tempo de estudante, e que eu sempre alertava:
- Ó Sr Laranjeira, nunca sirva estas batatinhas com aroma a bacalhau a quem de Fafe cá entrar.
E, por assim ser, com o António Pedro Vasconcelos, que vivia em Lisboa e sofria de saudades de uns bons bolinhos, na última vez que estivemos juntos, em Fafe, prometi-lhe trazê-lo cá a casa para provar os da Glória e levar uns congelados para, em Lisboa, tirar a barriga de misérias. Infelizmente a morte ceifou-o cedo demais e não chegamos a petiscar.
Nos tempos atuais, há uma casa em Carcavelos que tem bolinhos de bacalhau como deve ser: a Taberna OPorto do nosso conterrâneo e amigo Sérgio Ribeiro. Está, por isso, a capital a salvo.
Neste dia 16 de maio, feriado das feiras francas, veio-me essa memória e esse prazer por ter degustado ao almoço, em família, os ditos bolinhos. Quando assim acontece, há um universo que se abate sobre a alegria e aí chegam todas estas pessoas que, maravilhosamente, me fizeram gente.
É também esta a minha noção de milagre: o que um bolinho de bacalhau faz acontecer num coração reconhecido e grato.
Estar agradecido é uma das mais belas sensações do estar vivo, por ser testemunho do já vivido e de não ter sido em vão.



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