A lonjura.

 


Sexta-feira. Final de maio. O filho mais velho regressou de Huston, onde esteve a trabalhar por um curto período. Trouxe-me de Nova Iorque o jornal do dia. O mais novo regressou, no outono, de um estágio na ilha de Corfu. 

O mundo mudou de tamanho e o horizonte também. Sabe bem assistir a estas mudanças e perceber que isto não acontece apenas na nossa casa, mas em muitas outras aqui na cidade. E isso tem naturais efeitos sobre o modo como as novas gerações sentem a sua terra. A forma de estar longe condiciona a forma de estar perto e de se ser rente. Os nossos emigrantes são doutorados nisso. 

O sonho que paira sobre a noção de lonjura, e há tantas lonjuras quanto as formas e as escolhas dos nossos sonhos, vai pousando sobre o tempo e transformando a imagem que projetamos sobre o que poderemos ser e onde. A lonjura é um assunto do que está rente, de como vemos o nosso lugar no aqui e no agora. E quando se fica, fica-se com essa escolha, sendo daqui com o sentido de se ser do mundo. 

A minha terra teve em muitos momentos esse ímpeto de partida e de descoberta, pelas Américas, sobretudo o Brasil, pelas Áfricas que falam português, pela Europa e até pela Ásia, sobretudo Macau. Somos gente de ir com o coração cá e somos de cá com o coração dos que foram. Creio que também partimos quando partem e mudamo-nos com um certo esplendor: o esplendor da liberdade.

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