Sabonete Chipre Flores
Foto: PMM - Fafe
O ofício das horas é difícil. Por isso, devemos trabalhá-las de forma a que se não percam, a que nos deixem mais daqui e mais nos outros. As horas são muito curtas, mas muito nossas. Com o regresso do tempo frio, regresso habitualmente aos meus aromas do inicio de mundo. Do meu mundo, leia-se. Aí se guardam, entre outros, os que vinham da nossa loja. O «Martins da Avenida» vendia além de fazendas, alguns perfumes e sabonetes. Regressar a esses aromas é manter o exercício de ir à vitrina que ficava do lado direito da entrada e tirar de lá o Chipre Flores, da empresa Confiança, um dos seus clássicos, iniciado nos anos 20, “composto com notas de eucalipto, especiarias, laranja e lavanda”. No ofício matinal das horas, sabe-me bem tomar banho, regressando a essa época, às sonoridades do que já não existe, às suas vozes, aos ruídos do Largo, à ameaça de frio da casa onde nasci.
Começar o dia é, antes de tudo, começar o coração. E fazer escolhas. A primeira é a de não desperdiçar o tempo, a segunda é a de o amar até à exaustão, a terceira é a de não resignar, de não perder a característica, a identidade, as nossas pequenas coisas, que dão lugar aos nossos pequenos sentimentos, que dão origem aos nossos pequenos gestos, que acabam nas nossas mais expressivas e últimas atitudes.
Começámos assim o dia. Há um perfume que nos liga. Num perfume pode caber o universo, se aí o tiveres guardado alguma vez. Começámos assim o dia, para que nada acabe, para que não morras, para que nunca morras, pois só o amor é capaz de remediar a morte.



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