Perguntar-te.
Foto: PMM - Varsóvia
Poderia haver uma parte do mundo onde o silêncio fosse a primeira abordagem. A primeira forma de estar junto às causas, olhando-as como se olham os barcos, os que partem e os que chegam. E depois, ainda em silêncio, perguntar por que partem e por que chegam. Sabê-lo primeiro em nós para a seguir inventar a pergunta. Uma pergunta é uma invenção de nós mesmos no mundo que já nos pertence de alguma forma, mas que ainda está do lado de fora. Mas uma pergunta não é uma pergunta. É uma invenção. Inventamos o que perguntamos e inventa-mo-nos no que perguntamos. Gostava de perguntar-me há quantas horas te consigo amar? Gostava de perguntar-te há quanto tempo fui morrendo e nessa morte se ergueram as mais memoráveis sintaxes da nossa interminável conversa. Sim, porque não conseguimos parar de trocar perguntas. E cada pergunta é uma conversa que vem do fundo de nós, mas também do que decidimos que deve ser a incógnita de nós mesmos.
Uma pergunta é uma decisão. Um dia não te perguntarei mais nada. E esse será o dia em que estaremos ambos efectivamente mortos. E teremos que ser os dois a partilhar esse estado de morte, pois a sobrevivência de um fará com que continuem as perguntas, vestindo-as de outras roupagens, levando-as para uma lonjura que o nosso desaparecimento acarreta, mas que é uma lonjura cheia de coisas rentes, a rebentar dos objectos, dos nossos, ainda que na ausência que o destino sempre deposita como se fosse pó sobre a casa abandonada, sobre os móveis por abrir, sobre as vozes que já só a memória reconstitui no mais recatado coração.
Gostava de perguntar-te, quanto tempo demora o coração a não saber? Apenas isso. Apenas por essa ser a mais funda certeza do amor.



Comentários