Nova obra de César Taíbo


Amanhecer sobre a visão da mais recente obra de César Taíbo «Os pesadelos de Hergé», uma paródia aos tempos actuais, uma grande síntese das inquietações da Europa nos tempos que correm. Um quadro como um duro retrato de época, uma ontologia das contradições do ser no mundo e no tempo. Um retorno, um eterno retorno, ao difícil passar das coisas, à lentidão das horas sobre os pesadelos e fantasmas que não partem, que vão ficando transfigurando-se em crónicas ironias.
O universo do César é um planeta, já o escrevi um dia. Um planeta onde costumo ir e onde reconheço as faces, as dele e as minhas e as dos nossos. Há uma janela que é preciso abrir muitas vezes, a janela da arte, por mais difícil, por mais dolorosa, mas que é urgente que se abra. O que o César mostra da sua varanda sobre o espírito é uma noção do tempo. O tempo é uma pedra onde se inscreve tudo e só as intempéries e as rupturas são capazes de suavizar. Mas o tempo é algo de inventado e corre muito lentamente, o que é muito bom para o que se sabe do amor, mas muito duro para o que se pretende desligar dos ódios e das contradições. Desde a Grécia, desde antes da Grécia, que  não nos saem da vista estes pesadelos e estes fantasmas. E porquê? Porque a humanidade é muito menos amanhã do que julga ser. Outra vez, escrevi que bastaria ao nosso tempo que fôssemos Cristãos. E ser Cristão é perfilhar uma ideologia, ou uma fé, que tem mais de dois milénios. E, contudo, ainda estamos muito aquém desse aportar sobre a liberdade que é evocada na voz desse Cristo, de olhos abertos e braços abertos, perto dos Homens, o Cristo que está retratado na magnífica escultura da nova basílica de Fátima. Estamos ainda na margem de cá dessa ideia, da margem de cá do pensamento dos sábios Gregos, da margem de cá dos poetas do oriente, da margem de cá dessa longa e doce e funda liberdade, embora dela já nos tenham contado as suas faces há alguns milénios. O tempo é lento. Os pesadelos demoram-se. Mas também se demora o amor, por compensação, como arma, como a melhor e mais funda arma para afastar fantasmas e destruir pesadelos.
A obra de César Taíbo estará disponível para ser visitada na exposição que abre sexta-feira em Fafe, nas comemorações do 25º aniversário do Cineclube, acompanhado de mais 24 artistas que fizeram estrada com este grupo de cidadãos que um dia decidiram mostrar o cinema que os circuitos comerciais não mostram e com isso inquietar a mente e o coração dos fafenses.
É sempre um acontecimento quando César estreia uma obra. Este é um dos mais bem conseguidos retratos do mundo que ele produziu nos últimos anos. De braço dado com Hergé, que é uma espécie de jura: de braço dado com quem tem da arte a nobre missão de dizer alguma coisa ao ouvido mais sensível da sua época e do seu contexto.

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