A beleza.

Os dias claros de verão. As viagens que fazemos com o corpo e com a mente. Um copo de vinho neste almoço de subsistência do avião devolve-me a casa. Devolve-me a infância do meu pai nas margens do Douro, a sua vontade de não deixar morrer essa criança até ao fim dos seus dias.
Um copo de vinho para que me não esqueça que, provavelmente, serei o último humano a tomar conta da criança que ele foi, durante as férias grandes, nas margens do Douro, nas margens mais distantes que ele conseguia dar à infelicidade do resto ano, quando era muito novo e já tudo sabia sobre a perda. A minha avó, sua mãe, morrera em 1934, tinha ele 12 anos.
A criança que o meu pai foi, de mão dada comigo, a recuperar na paisagem o que ía partindo, o que fomos perdendo, mas crentes, ambos muito crentes no poder regenerador que tem a beleza. A beleza é das poucas coisas no mundo que desobedecem às leis do tempo. Por isso, vou aqui a caminhar com essa criança nas margens do Douro e orgulhoso pelo velho que o meu pai também foi, e que não me dei conta de o ter sido, não abandonar um dia que fosse esta ideia, esta crença no que é belo e que, por isso, merece viver para sempre.

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