Verões.


Com o sol de volta à cidade, com o verão a entrar pela casa, abro uma janela na manhã da memória e retomo o Largo e as suas sonoridades matinais que eram quase sempre de festa. O verão começava com os santos populares,as cascatas e as esmolinhas para o santo, mais tarde vinham os franceses e depois chegávamos a Setembro com um cheiro a recomeço e a outono. Na infância recomeçava-se em Setembro, porque em Outubro recomeçavam as aulas e avançava pé ante pé o inverno, onde sempre se descobriam as dores do crescimento.
Na altura, na Vila, até os riscos da calçada em cimento, aos losângulos, nos serviam para aí construir carreiras paras as caricas, estradas para os carrinhos, tudo bem limpo com os paus dos gelados de laranja, em gêlo, os mais baratos e os mais frequentes.
Os verões com os bonés azuis escuros, de pala redonda, as sandálias de fivela. Os verões esperançados pelo sorvete do Alcininho do Império, ao fim da tarde, a única máquina que por cá houve durante anos. Os Verões do Tang de laranja e das barracas de farturas e brinquedos, dos primos que vinham de férias e da duplicação de acidentes e arranhões.
Nesta manhã de sábado, está assim o meu verão, e assim tentarei manter-me, no doce engano de que se pode prolongar por muito mais tempo este estado de verdadeira e profunda felicidade.

Comentários

António Daniel disse…
«doce engano...». Gostei!
António Daniel disse…
Uma marca que deixou Fafe foi a restauração. Os tempos bucólicos do verão fazem-me lembrar as tábuas do chão, os cheiros apetitosos, os guardanapos de pano, os pratos de muitas culinárias do Zé da Menina, da Dinâmica e da Julinha de Ribeira. São marcas que nunca deviam ser apagadas.
PMM disse…
Pois é bem verdade. O Zé da Menina foi até ao fim o único restaurante de FAfe que vendia vitela em posta, acompanhada por um inesquecível esparregado da D. Rosinha. A Dinâmica, comi lá umas vezes na adolescência, quando pedia aos meus pais para ficar em Fafe ao Domingo para ir às moças e a Julinha da Ribeira, minha querida e saudosa amiga, muito lá brinquei, levá-lhe a lenha para os fogões e lanchava,aos seis anos, sem os meus pais saberem, com os carteiros que me davam bolinhos de bacalhau e um golinho de vinho branco. As marcas que se apagaram e fazem de nós que as vivemos uma espécie de pobres milionários por as termos, embora só no coração.
Abraço!

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