Verões.

Com o sol de volta à cidade, com o verão a entrar pela casa, abro uma janela na manhã da memória e retomo o Largo e as suas sonoridades matinais que eram quase sempre de festa. O verão começava com os santos populares,as cascatas e as esmolinhas para o santo, mais tarde vinham os franceses e depois chegávamos a Setembro com um cheiro a recomeço e a outono. Na infância recomeçava-se em Setembro, porque em Outubro recomeçavam as aulas e avançava pé ante pé o inverno, onde sempre se descobriam as dores do crescimento.
Na altura, na Vila, até os riscos da calçada em cimento, aos losângulos, nos serviam para aí construir carreiras paras as caricas, estradas para os carrinhos, tudo bem limpo com os paus dos gelados de laranja, em gêlo, os mais baratos e os mais frequentes.
Os verões com os bonés azuis escuros, de pala redonda, as sandálias de fivela. Os verões esperançados pelo sorvete do Alcininho do Império, ao fim da tarde, a única máquina que por cá houve durante anos. Os Verões do Tang de laranja e das barracas de farturas e brinquedos, dos primos que vinham de férias e da duplicação de acidentes e arranhões.
Nesta manhã de sábado, está assim o meu verão, e assim tentarei manter-me, no doce engano de que se pode prolongar por muito mais tempo este estado de verdadeira e profunda felicidade.


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Abraço!