A pensão.


Em Portugal há um destino de alojamento que foi desaparecendo com a chegada em força dos hoteis: as pensões. As pensões com classe e com a intimidade regrada entre gerência e clientes são uma raridade.
Há muitos anos, as pensões eram sítios onde se podia viver um quotidiano alternativo entre estranhos que se transformavam em pouco estranhos, entre desconhecidos que se tornavam companhia efémera porém com nível e com gosto.
O ambiente das pensões era um ambiente com alma, quebrando as raízes tão fundas de um quotidiano, por vezes cansativo de tão pesado e de tão rotineiro. Viver numa pensão era sobretudo levar por diante o exercício agradabilíssimo de só mostrar aquilo que entendessemos ser mostrável naquele tempo e naquele contexto.
As pensões permitiam-nos olhar para dentro de um ponto qualquer mais distante. Olhar de fora, do longínquo que os ohos dos outros possuem quando nos vêem sem nos conhecer. Somos quase virgens, quase sem nome nesses lugares e contudo temos uma estética que desconhecíamos e sobre a qual raramente equacionamos olhar e definir aí o nosso limite e a nossa fronteira.

- Nem sabes. Estás sentado no sofá individual, junto à janela. Ouvem-se os carros compassadamente na rua Brancamp e as vozes das personagens da telenovela. Um negro senta-se com a mulher no outro sofá. Dás boa-noite, como quase sempre. Tentas mais uma vez não ligar muito ao miúdo de quatro anos que te olha com aquele jeito que os miúdos sempre olham, quando querem meter conversa para nos atazanar a noite logo de seguida. A tua face é uma máscara cheia de silêncio. A personagem da novela come sofregamente um pequeno almoço de frutas. Os negros comentam que também era assim na terra deles. Sorris. Eles vêem que sorriste e perguntam-te se já estiveste em África. Respondes que não. Dizes coisas que ouviste dizer sobre África. Eles ficam a pensar que gostarias de ir lá. Tu ficas a pensar se há em ti um aventureiro que seria capaz de deixar tudo e ver o céu claro de que todos falam e que tu nunca viste. Os negros sorriem-te. Tu sorris. Levantas-te por dentro e vais embora para África. Só voltarás de manhã, quando cheirar a café e a torradas na pensão ou quando fores um ser normal e mais experimentado no sonho, quando fores esse desterrado nortenho, felícissimo por viver numa pensão em Lisboa, de onde partem, pelo menos os barcos.

Comentários

Anónimo disse…
Em Lisboa há lugares tão densos que até parecem da província. As pensões e residenciais são assim.

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