Houve um tempo.
Houve um tempo, de horas longas, de silêncios raramente violados na Vila nocturna, quase sem carros, quase sem gente.
O frio ouvia-se, a geada tinha um cheiro e as árvores deixavam na noite uma sonoridade despida quando o vento por elas passava.
A vidraça húmida e gelada, junto à minha face da infância, contava tudo o que desconhecia sobre o exterior inacessível, sobre as aventuras e as maravilhas que só eram verdadeiras no calor muito intocado do coração, o meu de menino quase preso no destino, quase velho, mas muito menino, mas pouco criança, mas muito a caminho, mas pouco a caminhar.
O meu coração, o primeiro, tão grande, tão espaçoso, tão a adequar-se ao desconhecido e ao imprevisto. Tão a conformar-se com o tempo que a vida leva a perceber o tempo que resta para o resto da vida.
Houve um tempo, de horas longas, onde falava baixinho e longamente o coração. Quase nada se ouvia para além disso. Hoje, parece-me perfeito. Hoje, parece impossível


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