A infância vista daqui.

Há ciclos que se fecham para sempre. Saudades que ficam para sempre. Hoje, morreu uma grande parte da minha vida. Ou antes, fechou-se. Dolorosa e misteriosamente. Uma parte do que fui perdeu referência porque amanhã mesmo enterrarei a tia Alice e com ela vai tudo o que havia de futuro de uma infância que em mim morava e nela também. Vamos ambos fechar esse lado da infância, que ao contrário do que possa parcerer ainda poderia ser futuro, caso ela continuasse viva e a amar esse tempo em que eu era criança e ela cuidava de mim. Vamos os dois fechar esse ciclo e esperar que alguma vez possamos abrir outros com a mesma grandeza com que vivemos este.
Consegue-se ser criança sempre que alguém ainda sabe cuidar da criança que fomos e da que ainda temos. A tia sorria-me de um jeito que parecia estar continuamente a afagar o cabelo do miúdo que fui e que ela soube tão bem amparar com uma alegria que na minha infância rareava. Há anos pedi a Deus que a não levasse, que daria tudo para voltar a comer a marmelada que ela sempre fazia pelo Outono e que sempre me dava. Deus fez-me a vontade. Ainda tenho uma tigela deste ano por estrear e essa é hoje uma relíquia, por ser a última. Não sei a que saberá, não sei sequer quando a irei provar.
A tia e eu fomos uma espécie de legenda de um tempo que nunca deixámos morrer, esse período em que estávamos todos vivos e ela tinha uma força que aos poucos foi desaparecendo. Fomos até ao último instante em que nos vimos esse pacto: nunca deixar morrer o que de mais precioso e mais puro foi a nossa vida. Vivíamos ambos com isso, como se vive com o próprio ar ou com a imagem regular das estações ao longo dos anos.
É certo que amanhã terei pela frente uma despedida e que fisicamente nada mais me restará que uns retratos e uma velha tijela de marmelada. Amanhã morrerei um pouco mais, porém vivi com ela muito, vivi com ela tanto que mesmo agora que parte, tenho a mais absoluta certeza que vista daqui essa infância foi muito bela, muito íntima, e que só assim conseguimos chegar a lugares como os de hoje e chorar com alguma alegria por nos termos cruzado por ter sido tão linda a caminhada. Adeus, querida tia.


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