PEDIR COM O QUE SE DÁ
Há uns três anos, num início de manhã, entrei na Igreja de São Roque, em Lisboa, para falar com Deus. Um amigo estava às portas da morte e isso era tremendamente injusto. Coloquei nesse dia o meu coração doído sobre os braços da Virgem que segurava o Cristo Menino.
Sempre me questionei sobre os poderes e a sensatez da oração em situações de desespero. Contudo, há uma parte que me faz sentido. Quando tomamos a decisão de pedir pelos outros estamos a ter consciência do que em nós ficará incompleto sem essa ajuda, sobre o que nos deixará um vazio com o qual não sabemos como lidar. Estamos a sublinhar o quanto de nós existe no outro e o quanto do outro existe em nós. E isso é uma revelação extrema da nossa condição de humanos.
Quando entro num templo com este propósito, percebo o espelho de Deus e do Homem numa sinceridade absoluta. E a sinceridade poderá ser a causa maior de todos os milagres. A sinceridade singela a ser a síntese do que nos vale a pena e do que fomos interiormente capazes de erguer.
O nosso espírito, a nossa consciência, a nossa alma é feita deste silêncio magnífico que nos traduz e nos revela. Penso e sinto que Deus assim o possa entender também. Nesta frase há uma ousadia, mas pela mais humilde condição de vivente.
Na realidade, somos todos pedintes. Mas o segredo desta nossa pobreza está no que temos para dar no momento de pedir. Quando não há nada para dar, sabemos, com franqueza, que a razão do nosso pedido se esvai como areia entre os dedos.
Há dias, regressei a Lisboa e entrei na Igreja de São Roque. Fiz o habitual percurso de contemplação pela arquitetura e pela arte sacra que ali moram. Voltei ao altar-mor, de frente para a Virgem que segura o Cristo Menino. Pude agradecer e contar que o meu amigo se salvou. O meu coração ainda lá morava, tão menino quanto aquele Cristo, ambos tão longe do fim, ambos tão perto de ir deixando no tempo e no rasto o que veio para realmente permanecer.



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