O SR. FERNANDES ENFERMEIRO.
O que faz as terras são as pessoas. Ao longo do tempo elas são uma espécie de ritmo sincopado que traduz a civilização. O Sr. Fernandes Enfermeiro foi uma instituição a que tantos recorreram ao longo da vida. Eu fui ao seu consultório várias vezes em criança para curativos ou para a acompanhar familiares e amigos.
A sua credibilidade na praça era muito próxima à de um médico, embora a cultura da época desenvolvesse a semântica de ser o Sr. Fernandes Enfermeiro e não o Sr. Enfermeiro Fernandes. Uma expressão parecida com as professoras primárias que eram sempre a Dona qualquer coisa, enquanto os professores primários eram o Sr Professor. As mulheres ricas eram Donas e as mulheres pobres era Senhoras, abreviado para Sê.
A forma de trato dizia muito sobre a divisão entre classes, entre profissões e género.
Voltando ao Sr Fernandes Enfermeiro, o seu consultório junto ao Tribunal era um autêntico serviço público. Lá se cruzavam pessoas de todas as classes sociais e dali vínhamos revigorados, umas vezes com mais sofrimento do que outras, pois, à época, os anestésicos não estavam tão vulgarizados, daí o frequente cheiro a éter.
Naquele tempo ainda se ferviam as seringas para esterilizar, em caixas metálicas aquecidas por uma lamparina alimentada a álcool, usava-se Merthiolate que nós pronunciávamos como “metiorolato”, mercúrio e gazes que envolviam as feridas, autênticas medalhas de quem tinha ido ao curativo.
No meio de tudo isto, a simpatia e o cuidado que nos dedicava faziam com que nos sentíssemos em boas mãos.
O silêncio do edifício e a sua natural frescura parecia tranquilizar e afastar o medo. O som da então Vila de Fafe era outro, noutro compasso e noutra escala, e quando o voltávamos a ouvir, assim que dali saíamos, sempre pensávamos: esta já passou…
Nas nossas cabeças de miúdos sabíamos que embora tivesse passado não seria a última vez que ali iríamos. Mas, como em tudo na vida, há sempre uma última vez. Não me recordo qual foi. Mas recordo com respeito e gratidão este nosso Enfermeiro que nos cuidou tanto que não nos sai da memória.



Comentários