A MÁQUINA A PETRÓLEO DA AVÓ ÁGUEDA
Ela vivia numa casa pequena no Largo do Santo. Vinha buscar-me pela tarde e o tempo transformava-se. Juntos tínhamos uma liberdade pequenina que era infinita.
Aquecia o café na máquina a petróleo e lanchávamos pão com Planta. Eu bebia leite e ela café.
Quando a noite caía levava-me ao colo até casa dos meus pais no Largo Salazar. Tinha um casaco em lã lilás. A minha cara ia colada ao seu ombro, abraçado ao seu pescoço.
O colo da minha avó Águeda é um sítio eterno, é uma pátria. Não havia imperfeições nem medos, não havia nada que fosse a mais.
Há uma parte de mim que ali ficou para sempre. E se há um exílio onde se pode ser feliz para sempre, esse foi o lugar.
Ainda ouço o metálico ruído de quando a avó acendia a máquina, ainda ouço a sua voz a anunciar o ceremonial do lanche, ainda a ouço a inventar histórias para que o mundo pudesse esperar e ser imperfeito sem nós.
Muitos anos depois, comecei a escrever histórias, mas nenhuma atingiu ainda a grandeza da sua voz, nenhuma chegou ao som metálico da velha máquina a petróleo que aquecia o café como se fosse o mais bonito poema que o amor pode ter escutado algum dia, em alguma parte do mundo.



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