A GRANDE LIÇÃO
Quando era criança aprendi uma das mais puras e mais belas lições sobre generosidade. Aos sábados, no período da ditadura, era habitual os cidadãos pobres virem à Vila fazer o seu peditório a quem por ali andava e nas lojas de comércio.
Na loja do meu avô habituei-me a conviver com estas pessoas, sendo que a uma em particular passei a ser devedor dado o exemplo que me deu.
Chamava-se Alexandrina, teria já mais de 70 anos, o que à época era muita idade. Ao final de cada manhã de sábado, passava pela mercearia do Tininho Barros e comprava uma mão cheia de rebuçados mulatos. Assim que saía ia ter com as crianças da rua, entre elas eu, e oferecia um rebuçado a cada.
Tinha um sorriso que desvendava uma felicidade infinita ao poder ver que nos fazia felizes. Guardava naquela dádiva uma realização pessoal ao partir de si o também ter direito a dar, recebendo em troca os sorrisos e o carinho dos miúdos que a rodeavam.
A D. Alexandrina mostrava-nos a dignidade da pobreza, a igualdade possível em plena miséria por também poder dar, dar do tão pouco que lhe sobraria.
Nunca mais a esqueci e mantenho-lhe uma infinita gratidão. A D. Alexandrina que era tão pobre e tão grande no que à humanidade mais importa: o importar-se com o outro e o saber que a melhor das nossas felicidades vem, não do que recebemos, mas do que conseguimos dar para morar no sorriso e na felicidade daqueles que nos rodeiam



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