O SINETE DE LACRE DO MEU AVÔ



Recuperei, esta tarde, o sinete de lacre da correspondência do meu avô Bernardino Martins. Um bom amigo ofereceu-mo, dizendo-me que tinha para me entregar uma relíquia da família. Descobriu-a entre as suas antiguidades. Emocionou-me tanto aquele gesto. 

Trouxe-o comigo e pus-me a pensar nas tantas cartas que lacrou. Uma grande parte seriam comerciais, outras pessoalisimas. Numas e noutras, tanta esperança que terá selado aquele objeto que existe há muito mais de um século. Atravessou, selando, duas guerras mundiais.

As cartas que quase se não escrevem, nestes tempos imediatos, lembram-me as frases que nos sintetizavam e que aguardavam a viagem entre a ida e a volta do correio. 

Guardo muita correspondência do meu avô. Nela se eternizam as suas alegrias e as suas tormentas. 

O sinete de lacre regressou a casa e a casa ficou maior. Acompanhamo-nos tanto destes objetos. Há sempre uma certa chegada quando os tocamos, sabendo que, de algum modo, também neles nos vamos despedindo. Mas, não há despedida mais bela do que envelhecer, do que ir partindo, na sombra tão viva dos que nunca deixámos de amar e que assim vivem e nos vivem nestes objetos.

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