O CORRIMÃO
Esta tarde, ao reparar no corrimão da escada de minha
casa, apercebi-me da sua idade e das pessoas que ali se apoiaram e que foram apoio
dos meus dias desde o primeiro instante.
Uma boa parte já não está fisicamente entre nós, o que
faz daquele corrimão em madeira um monumento aos dias que ali passaram e às vezes
que ali encontraram amparo ao subir o escadario.
Há uns dois anos, por me achar novo e por isso me não
agarrar, caí, parti os óculos e ainda me aleijei com mais aparato do que
consequência. Mas aquele momento foi uma marca. Entregou-me o corrimão,
colocou-me lá, como antes colocara os meus ancestrais.
Na verdade, esse episódio não me entristeceu, antes pelo
contrário. Quando subo ou desço as escadas e ali apoio a mão é como se os
tivesse de novo ao lado. E isso, nos dias de hoje, não tem preço.
O meu lugar no corrimão da casa, da nossa casa, do único
lugar onde sempre nos abrigámos como família, onde nos despedimos e onde vamos
construindo a vida, seguros pelos tantos exemplos, pelos tantos conselhos, pela
tanta coragem.
O corrimão que, hoje, me ampara é muito mais do que um
objeto, foi uma escolha, primeiramente estética, e, com o passar da idade,
passou a ser uma parte do tempo, de um tempo que não conhece a solidão por
nunca nos separarmos do que somos e de quem nos plantou neste mundo
como se
todo o bem pudesse cair sobre os nossos dias. E não se enganaram: há no amor
intemporal um bem que nos chega todos os dias. E o segredo está aí e é tão
simples: o amor que tudo salva.



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