O barqueiro.


Sobre a circulação da vida, há uma espécie de cais onde atraca, a todo o instante, o que sobra de digno e perdurável dos nossos passos.
Como velhos barqueiros, aí acumulámos viagens e vamos perguntando em que lado do mundo entregaremos o legado que meticulosamente guardámos sobre a tal dignidade dos dias.
Na sempre mutável pele da tarde, apreciciamos a obra humana e a sua brevidade para, a seguir, descobrir a sua beleza e ter aí a visão perfeita de que o nosso corpo do dia é muito mais extenso do que nós mesmos, por integrar magnificamente o corpo do universo, a visão emocionada de Deus, a infinita palavra, a vez onde morrem derrotados a ignorância e o desdém, para ver renascer ideias e sonhos, como na natureza do ciclo do húmus se evidencia a conclusão da flor e do fruto.

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