A ignorância e a Liberdade.


Pelo mundo, é preciso que se erga a voz contra a subreptícia e calamitosa ignorância. É preciso que se diga que em cada pedaço de metódica indiferença são séculos de civilização que estão em risco de derrocada e que por cada silêncio em torno disto são décadas de medo e de solidão que se voltam a erguer e esperar que, de novo, algo muito novo e muito puro tente rebentar barreiras e lançar ao espírito a superação do próprio espírito.
A questão em torno do nosso grau de civismo não é um exclusivo da política, das lideranças ou das crenças. Por tempo demais se tem propagado a ideia de que o mundo não avança por culpa de alguma coisa que sempre está acima de nós mesmos, sem que consigamos ter a honestidade intelectual de nos questionarmos até que ponto temos contribuído para que o mundo, o nosso e o dos outros, tenha efectivamente avançado. É como se alimentássemos em nós um enorme ditador que predestina a nossa desgraça e o nosso fracasso.
Os países são aquilo que a governança faz deles, mas também são aquilo que os seus cidadãos conseguem fazer do seu próprio dia-a-dia, com o muito ou o pouco talento que vão demonstrando para mudar as suas próprias vidas. E esta é a tremenda falha de análise que sistematicamente se tem quando se determina o sucesso de uma aldeia, de uma cidade, de um país ou de uma união de Estados.
Claro está que a desresponsabilização dos cidadãos no seu próprio papel social fortalece autoritarismos básicos e faz com que cada vez mais a exploração se denuncie não só pelo que se não pode consumir com o que o dinheiro compra, mas sobretudo em tudo aquilo que se não pode erguer em virtude de uma militante inércia, de uma flagrante ignorância ou de uma tranquila aceitação dos dias onde repetidamente se não faz, se não pensa ou se não sonha.
A ignorãncia e a indiferença voltam a atacar com uma força inacreditàvel e só uma revolução de mentalidades poderá levar-nos a sair de uma crise que muito pouco tem que ver com a subida do petróleo, dos bens essenciais ou das catástrofes naturais.
A mais dolorosa circunstância é a circunstância Humana quando desprovida de alma e de exigência, de utopia e de empenho, de exigência e de entrega. Perante isto, todas as outras tragédias são menores, ainda que tragédias sejam, circunstaciais e conjunturais. Pois, mau mesmo é que estruturalmente o Homem se transforme na sua própria negação, ou seja: que por si mesmo interrompa o que julgávamos ser o ininterrupto caminho para a Liberade.

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