O armário das bolachas.

Ao visionar o quadro de John Peto, «The poor man's store» (1885), lembrei-me do armário das bolachas torradas e das bolachas Maria em casa do avô. Tinha uma arrumação tremendamente misteriosa aquele armário. Os jogos de luz e sombra que ali havia eram interpretados à luz do desejo. Desse mundo da infância, tive a sorte de poder criar desejos e de levar por diante conquistas, o que me veio a ser muito útil, sobretudo para perceber melhor o preço das coisas.
Sou do tempo em que muito poucas coisas estavam garantidas. Mesmo as bolachas não eram oferecidas sem regra. Era preciso fazer algo por merecê-las e mesmo merecendo-as nenhum excesso era permitido. E isso não foi traumático, mas antes pedagógico e motivo de felicidade, pois de cada vez que as ditas bolachas apareciam ao lanche era um bom momento que com elas surgia.
Veja-se então como estas coisas são efectivamente importantes, mais de trinta anos depois ainda consigo relembrar tudo e todos com um nunca negado rasgo de felicidade e afinal era só um armário, só umas bolachas, só um desafio e uma família como tantas outras.
Importante, porém, é perceber como é que isto poderá continuar, como poderá o tempo manter vivos os pequenos significados, as pequenas coisas, tão grandes para a alma, tão decisivas nas horas em que se experimenta a solidão ou a privação das coisas que nos vão largando para sempre.


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