Ainda.

em memória do meu amigo e colega Laureano Silveira
Ainda não é das árvores esse magnífico outono de silêncios,
nem do vento um lírico canto de promontório e de sede se aproxima.
Ainda não é do chão o peso da terra bordada
por inúmeras gentes, acalentando a finitude
e o seu mais belo e resignado colo.
Ainda não vem da chuva a memória mais limpa
do que a perda sempre acrescenta
à alma viandante, docemente incompleta.
Ainda não anoiteceu suficientemente
para se escutar o coração dos desertos
e a livre linguagem dos seus insectos.
Ainda nenhuma brisa fez lembrar
a secura da pele e o envelhecer do corpo
ateado à bravura da vida.
Ainda o fogo
não gemeu tudo sobre a lembrança,
nem deixou em cinzas o olhar mais último
que resuma uma vida inteira.
E mesmo assim, ela chega, funesta
e incompreensível, a levar do quase tudo
o quase tanto
e a abrigar no quase nada
esse abismo de impossíveis,
doloroso retrato, canção interrompida,
ininterrupta palavra que tudo guarda,
sendo esse o pacto possível, a promessa profunda
com os que não morrem.


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