O ser e o fazer.

Não sei se as personagens que acabam por ser as próprias cidades serão gente. Não sei se existirão nalguma coisa para lá das ruas que identificam. Uma das primeiras vezes que estive em Paris vi uma adolescente a tocar acordeão, perto do Sacré-coeur. Hoje, passando no mesmo sítio, vi a mesma personagem, uns anos mais velha, vestida de modo diferente, no mesmo lugar com o mesmo género de decoração kitsch em volta.
A pergunta que me assaltou foi a de saber se se tratava da mesma pessoa ou da mesma rua. Assaltou-me e inquietou-me pela forma como as coisas ao fundirem-se podem anular identidades. Não será um problema apenas da jovem tocadora de acordeão daquela rua em Monmartre, será de toda uma civilização que decidiu identificar as pessoas pelo que elas fazem, muito mais do que pelo que elas são. Daí a inquietação, daí a pergunta sobre o que sobrará de tudo isto.


Comentários