O avô e o mundo.
Hoje, o avô completaria 115 anos, no mesmo dia em que o Fígaro anuncia na sua primeira página os prognósticos para as próximas eleições nos EUA onde se discutirá mais do mesmo na linha de McCain, pelo menos em termos de política externa, ou se, no plano da viragem, eleger-se-á uma mulher ou um negro, por parte dos democratas. Este é o retrato fiel do simplismo a que se votou a discussão política.
Com o avô aprendi que a vida é demasiado complexa para que haja uma omnipresente linearidade de argumentos. Mas, com ele também fui aprendendo que é muito importante que nos situemos e nos definamos em regras basilares que devem ser o mais ricas possível para que se garanta a coerência nos nossos actos.
Ao relembrá-lo, dedico o momento a reflectir sobre a falta que faz a ideologia. É que sem esta, sem as suas regras, sem o seu sempre necessário aprofundamento, rapidamente se cai em tentações de relativizar tudo e de quase todos os actos serem tolerados por falta de base.
A política, em sociedades democráticas, deveria sustentar-se na inteligência e assim não deixar escapar as conquistas civilizacionais a que fomos assistindo, devendo ser destas a feroz guardiã.
Se assim fosse, não se centralizariam as discussões em superficialidades nascidas de preconceitos que, pelos vistos, ainda não estão sanados. Hillary não será boa presidente por ser mulher, como Obama não será bom presidente por ser negro. Triste é vermos, ainda hoje, que se uma mulher ou um negro forem eleitos isso ainda constitui uma vitória de alguns princípios civilizacionais. A lição a tirar é a de que o que faz falta é aprofundar a luta pelos direitos cívicos que, afinal, se reconhece não estão senão em letra de forma. Para os tornar em letra d’alma, mais importante do que eleger um ou outro candidato democrata (espero vivamente que aconteça) é pensar e agir sobre as causas e as consequências desta discussão.
Aprenda-se a lição de que a democracia e a liberdade não estão tão asseguradas e maduras conforme parece face aos magníficos diplomas legislativos que muito poucos sentem e ainda uma menor percentagem lêem.
É aqui que as ideologias fazem falta, para que haja regra e alguém que militantemente pugne por ela e a cultive e a aprofunde. Quando assim for, poderemos com mais propriedade falar em desenvolvimento civilizacional.
Razão tinha o avô quando dizia que não era com duas tretas que se constrói uma vida! Assim o é no mundo, e que estranho que ele vai…, o mundo.


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