Os poetas e a poesia.

Pergunto-me, onde andarão os que ainda não são poetas. Que mundo é este? Que razões colocará aos que ainda não escreveram um único verso e que já nasceram há muito mais do que um único ano? Onde estarão? Que perguntas haverá que se lhes coloque, para que consigam um primeiro verso? Não há versos sem perguntas, nem razões. O mais certo é que existam e andem por aí. Mas não os vejo. E nem sei se o defeito é meu, se deles que se não mostram.
Há dias, um homem disputava comigo a estante de poesia da Bertrand de Guimarães. Pedi licença para tirar da prateleira um livro. «Desculpe, faça o favor!» respondeu-me de modo amistoso e camarada. Apeteceu-me ter-lhe batido nas costas, apertado a mão e dito: «Cá estamos, não é? A ver poesia, não é?», mesmo que dizer isto fosse rídiculo e desgraçadamente militante. Fiquei entusiasmado por sermos mais do que um naquele canto minúsculo da livraria. Fez-nos parecer a ambos elementos de um grupo separatista que quase ninguém conhece, de uma minoria a batalhar por uma causa que quase ninguém ouviu falar. A poesia tem destes encantos. Creio que sempre os teve e que, mesmo neste aparente desvario idiossincrático, nunca deixou de existir poetas. A poesia é uma espécie de alquimia do mundo, que transforma coisas noutras coisas mais valiosas, a atingir a preciosidade dos momentos mais significativos, na maior parte das vezes breves, mas simultaneamente inesquecíveis. A poesia é como uma espécie de paixão, quando a paixão é a primeira grande síntese do amor, explicando o inexplicável, pelo menos na sua forma breve e de rajada, sem deixar de ser profunda e sem deixar de ser para sempre.


Comentários