Construtor de varandas.
Acordei com a notícia da morte do Professor Mesquitela Lima, figura incontornável da Antropologia Cultural. Recuei até à idade do liceu, ao seu livro de capa azul com uma figura de arte africana. Lembrei-me das aulas, mas sobretudo de como tudo aquilo foi importante para rasgar janelas no meu cérebro agarrado ainda ao conservador isolamento da minha terra, esse cérebro em formação tão inicial e iniciática perante a justificação do diferente, mas sobretudo pela expressão do distante e do fantástico.Devo-lhe essa magnífica varanda sobre o mundo. Foi ele quem a construiu em mim através dos seus textos. Nunca mais fui igual. Até a beleza foi mudando tanto, ao ponto de a ver tão grande que a fui transformando em leitura pessoalíssima do meu mundo, para aos poucos ir escrevendo o que espero ser o sentimento pessoalíssimo de quem lê.
Hoje, encontrei-me com a Isabel Alves, à hora do café matinal, e na viagem para Braga lembrei-me que ela tinha um quadro que me trazia à memória este sentimento de raíz e de genuinidade de percurso. É um quadro da série «Diários», de 2004, e tem como título «Uno».
É essa imagem que utilizarei, substituindo as flores, perante a memória do velho professor que hoje se despede do mundo.


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