O abandono das coisas.

Há dias, dei comigo a pensar sobre o destino que damos às coisas e aos lugares. Mais propriamente, à cadência com que o fazemos e à forma, consciente ou não, como tratamos ou abandonamos o que é tangível e intangível.
Andava a escrever um poema em torno de uma velha pereira que eu tinha no quintal da casa onde nasci, plantada no tempo do meu avô e por onde a minha avó, falecida antes dos quarenta anos, terá brincado com os seus filhos e onde eu próprio brinquei anos mais tarde. É curioso notar que, quando deixei a casa, com cerca de onze anos, não me dei conta de que estava a fechar uma época para sempre. A casa já não existe, a pereira foi arrancada e com ela arrancados os gestos todos e todas as memórias que aquela árvore guardou durante tantos anos. Hoje, lembro-me que se a tivesse, tinha ainda o privilégio de a tocar e sentir que estava a tocar em algo que a minha avó tocou, ainda feliz, ainda sem sofrer da tuberculose que a matou. Se ainda existisse a árvore naquele sítio eu estaria à sombra no lugar onde os meus ascendentes estiveram à sombra, teria o privilégio de ter a mesma coisa, porém acrescido dessa memória.
Nas cidades, acontece isto repetidamente. Temos que nos despeidr dos lugares e das coisas, sem que muitas vezes pensemos no que estamos efectivamente a perder . Mas tem de ser assim em muitos casos. Mas não tem de ser assim em muitos outros, e nisso não se tem pensado muito...


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