O PORTO


Nos últimos tempos, tenho passado as manhãs de sábado no Porto. Esta cidade sempre significou para mim o melhor exemplo de grande urbe. Foi aqui que vi pela primeira vez os aviões a chegar, que andei de elevador para visitar os meus tios, que moravam num sétimo andar de um prédio junto ao estádio do Bessa. Foi aqui que o meu pai comprou a sua Black and Decker laranja, e que é ainda hoje o meu berbequim, era no Pão de Açúcar da Boavista que comprávamos leite condensado e natas com a prima Noemi que, quando vinha em férias do Brasil, queria fazer doces e strogonoff, e à época não havia destes produtos em Fafe.

Tudo isto aconteceu há cinquenta anos.

O Porto para mim é a nossa Nova Iorque. Tem diversidade, tem lonjura, tem urbanidade e ainda por cima tem carisma. 

Gosto muito de cidades. Gosto de Lisboa, mas Lisboa para mim não é uma cidade, é uma memória. Memória do Fado que ouvia na Bica, memória dos barcos que atravessavam o Tejo, memória da revolução de abril, memória de mim no bairro de Campo de Ourique a arrumar o futuro e os meus sonhos, memória dos meus amigos que ainda são os mesmos por lá e que me seguram a cidade que não paro de inventar. 

Mas o Porto é a minha melhor distância, é desafiante, cosmopolita como tanto aprecio, aprendi isso com os republicanos fafenses. A propósito de fafenses contaram-me que teriam sido os pedreiros de Fafe a construir a Câmara do Porto e que parte daquele granito também teria vindo de Fafe. 

O Porto do Campo Alegre onde a minha mãe estudou Filosofia, a minha mulher Llínguas e Literaturas modernas e onde eu estudei Direito pela última vez antes de ir ser feliz para Sociologia. 

O Porto onde fui receber os conselhos literários do grande Mario Cláudio, na sua casa. Onde me fui despedir do infinito Eugénio de Andrade, onde investiguei a história da minha família na Biblioteca Pública, que fica em frente ao jardim de São Lázaro, local onde escrevi alguns poemas para ver se me sairiam tão bem como os do Eugénio e nunca saíram. 

O Porto onde vou ver cinema alternativo e independente, onde ando pelas ruas sempre fascinado pelas portas altas que só existem ali. 

O Porto do Carlos Tê que escreveu o  Cavaleiro Andante e que foi a música que o Rui Veloso cantou no Estádio do Fafe, na hora em que eu disse à minha mulher que me queria casar com ela. Sim no meio de um campo de futebol. 

O Porto onde passava luminosas manhãs com o meu tio Orlando que tinha escritório na Rua do Bonjardim, por cima da farmácia, em representação da também nossa Fábrica de Armil. 

O Porto onde comi cominhos pela primeira vez quando, mais crescido, me iniciei nas Tripas do Abadia. 

O Porto do Douro que é um rio que para mim só vai dar a três lados: à infância do meu pai, órfão de mãe, a brincar em Valdigem na casa da Rosinha e da Emilinha; o Douro dos miúdos a atirarem-se ao rio fazendo dele um rio com gente e o Douro que acaba na Foz, onde, em adulto, ia passear em busca de sossego. 

O Porto onde vi nascer os meus dois filhos na Irmandade da Lapa e onde palavra alguma será suficiente para descrever esses instantes. 

O Porto, um lugar que me não sai da idade, que me não sai da pele, que guarda este tanto de mim e que é o que de melhor sei de uma cidade à escala das cidades a que chamamos grandes. 

Gosto de não ser de lá. Gosto de ir lá. De passar lá tempo. Gosto de lhe sentir a falta. De ser o ser que chega e sempre pergunta, de uma ou outra forma: ainda te lembras de mim?

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