Recuperar o coração

PMM - Bruxelas

Recupero o coração das coisas. No anoitecer de Bruxelas, de regresso do trabalho, evoco um tempo a que temos de voltar. O tempo de haver tempo para o significado. A atenção dada pelas pessoas que se conheciam e se preocupavam com a identidade do outro. A memória das mercearias em que os comerciantes sabiam dos gostos dos seus clientes, a memória dos livreiros que conheciam e sabiam enquadrar os livros na vida de cada um, a sazonalidade dos produtos que vinham de pequenos produtores de outras terras fazer as delícias da nossa.

Ainda cultivo uma certa forma de viver assim. Vou a Vila Real comprar ao oleiro do costume os nossos tachos em barro negro, conversamos sobre a sua durabilidade, sobre o frio dos últimos dias, sobre estes tempos. Ou comprar vinho nas adegas. Doces nos doceiros de Fafe. Queijo da serra, azeite, enfim comprar nos sítios onde as pessoas se implicam no fabrico do produto e no afecto que lhes dedicam por lhes terem entregado a vida.

Mas não é fácil fazê-lo. É caro. É preciso tempo. Mas já alturas houve em que faziam isto por nós e traziam os produtos com as suas histórias de afectos que eram o melhor selo de qualidade que se apresentava. Demorávamo-nos a saber a história de como o nosso merceeiro encontrou o homem das alheiras no meio de uma aldeia transmontana, ou de um fornecedor de Bacalhau da Noruega que só ele o representava na nossa terra, ou o queijo que vinha das beiras, mas de uma família que sempre se dedicou ao seu fabrico e à pastorícia. Demorávamo-nos nos afectos dos produtos para consumir mais o afecto e a narrativa, do que o produto em si.

Quantas histórias eram melhores do que o comprávamos. Mas também, quem precisa mais: a boca ou coração? Sei que esta costela conservadora me desloca do mundo. Mas não a deixo por nada. Um dia destes, como toda a gente, morrerei e o desafio é o de nunca desperdiçar o coração. Tudo mais é sobrevivência e biologia básica, que só importa para que o corpo se aguente em pé e espere uma outra história, uma outra lágrima, um outro sorriso, um outro amar o próximo e a vida como a nós mesmos. Tudo mais morrerá connosco ou antes de nós. Só as histórias permanecerão.

Comentários

Anónimo disse…
Só os poetas dizem as coisas desta forma assim tão bonita.
Fernado Pessoa escreveu num dos seus versos, que os poetas são uns fingidores, ele sabia bem do que falava. Tambem outro diz, que alguns poetas põem mascaras e que é preciso chaves para as abrir outras não têm chave e é preciso decifra-las.

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