O que fica.
Zagreb- 2010
Quando tínhamos sonhos em frente de toda a gente, saíamos demoradamente para os lugares e falávamos infinitamente do que não tínhamos e do que estaria para chegar.Quando nos mudámos para o peito mais resguardado da nossa vontade, sentimos falta de nós mesmos nas praças, nos cafés, nos lugares onde se apontavam a infinidade de nomes que dávamos ao mundo.
- Às vezes ainda chamo por ti, distraidamente. E só no sossego que a saudade guarda és capaz de estender o olhar e levar-me agora pelas ruas que não existem e pelos cafés onde nunca nos viram. Nas praças, nas praças incendiaremos o coração para que nunca sucumba a tua voz tão nova a mudar quase tudo. Só depois seguiremos na trajectória do vento para que, se tudo correr bem, nos confundamos com ele, desaparecendo suavemente pela face e pelos cabelos dos que ficam e hão-de recolher no seu olhar o que nunca dissemos e o que nunca fizemos. A única razão de sorrirmos uma última vez será essa: a constatação de que fomos seguindo no nosso desaparecimento e nunca o espanto faltará ao mundo.


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