Devagar

foto de Zorba.
Entra devagar. Abre, uma a uma, as portadas da casa onde nunca moraste. Morre de saudades desse sítio e entrega-te à sua memória como um bicho se entrega ao mundo, quando esfomeado.
Sorve-lhe o silêncio e, como os lobos, uiva. Ou, como uma mulher de outros tempos, canta-lhe as desgraças e as infâmias.
Entra devagar e sobrevive ao peso que o pó vai guardando sobre os objectos e não desistas desse roubo.
Muito em breve saberás que há manhãs muito diferentes daquelas de que te falaram a vida inteira. E, mais breve ainda, saberás de ti nesse extremo desconhecimento, nesse promontório de espanto onde, pela primeira vez, saborearás o sabor que tem o mar, quando o quiseres medir com o infinito que guardam já os teus olhos.
Entra devagar no coração do dia e fecha-te nele como se só a ti coubesse a missão mais íntima de chamar a noite para o resto do mundo.


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