A subsistência dos sonhos.


Os últimos dias, dormindo onde calha e comendo quando calha, atravessam-me como balas e deixam no chão um rasto a novo e a decisivo combate.
Gasto, por dia, uma ração literária de subsistência, reduzida a cerca de um quarto de hora e vou olhando o mais que posso para a vida e para o mundo como se os não quisesse perder de vista neste coração viandante.
Há dias, na esplanada do Roi Espagnol, em Bruxelas, consegui beber uma Leffe Brune como se engolisse, no meio de um turbilhão de circunstâncias, toda uma idade de que me fui despedindo e voltando, como se engolisse as memórias e os textos que ali escrevia há anos, como se fosse possível empurrar para a alma empedernida os capítulos do meu primeiro romance alinhavados no café das Galerias St Hubert.
Há momentos, parei em Coimbra B e lembrei-me que há dois anos ali parava em sentido inverso, com o peito cheio de desconhecido e uma vontade enorme de poder fazer com que, da minha oportunidade de mudar de vida, algo pudesse ser acrescentado à vida dos outros. Assim foi. Descanso, portanto. E no fundo, há uma certa comoção interior. Talvez seja essa a verdadeira estação de onde hoje parto, em ração de subsistência e com mais desconhecido pela frente do que nunca.
É mais uma viagem. Quantos entrarão desta vez? O que eu dava por uma cerveja , algures no fim da próxima paragem…

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