Perdido

Porque sei da tua voz como uma ferida
e do teu gesto como o caminho incendiado
no promontório mais fundo
do silêncio.
Porque sei de ti como um barco à deriva
no vento do meu desespero mais íntimo
e do meu pensamento mais puro.
Porque dizer o teu nome é mergulhar as mãos nas chuvas
mais distantes e mais invernosas da cidade mais bela
e longínqua, onde não estive ainda.
Porque ser do teu corpo é morar o lume que queima
todo o amor que não tive, e a idade errada onde não fui
o sereno viadante dos dias.
Porque ser do teu tempo é morrer lenta e tristemente no meu,
ouvindo a tua voz distanciar-se,
erguendo a cada instante a vez perdida
onde nada reconheço que tenha a marca, que tenha a vez,
que seja da luz da manhã
a coisa idêntica, o círculo fechado, a mão apertada,
o corpo indistinto.


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