ISAURA LUSITANA PINTO BASTOS E «O DESFORÇO»

 


Estando a iniciar um novo projeto na área da cultura, em torno da revolução de abril, veio-me à memória a figura de Isaura Lusitana Pinto Bastos, de quem fui amigo e colaborador no seu jornal centenário «O Desforço», fundado por seu pai Artur Pinto Bastos e pelo poeta João Crisóstomo, em 1892.

Durante 49 anos dirigiu o jornal, numa grande parte em plena ditadura fascista, dirigindo também uma outra publicação anual: o Almanaque Ilustrado de Fafe. Extraordinário arrojo, num tempo de menoridade das mulheres, ter à frente de um órgão de comunicação social uma mulher.

O seu jornal foi sempre um jornal de resistência, primeiro por ser assumidamente republicano em plena monarquia e, durante a ditadura, por dar voz a uma série de resistentes que, ainda que cortados pelo lápis azul da censura, lá aí iam publicando textos que ajudavam ao crescimento cívico e humanista dos cidadãos. Depois do 25 de abril manteve-se um jornal de esquerda, sendo sobretudo um veículo de opinião, mais do que um órgão de informação à luz dos critérios de isenção que hoje se propagam.

Interessa-me sobre Isaura Lusitana Pinto Bastos a capacidade de concretização, a coragem de levar por diante o jornal onde nasceu e se formou ética e intelectualmente. Claro que era filha de um herói. E isso dificulta sempre a identidade e a afirmação. O seu pai foi um fafense admirável, um jornalista e um humanista sem fim. Amava os jornais e a liberdade como muito poucos. Quando desempenhei funções de vereador, tinha no meu gabinete um retrato de Artur Pinto Bastos, pintado a óleo por Luís Gonzaga. Os alunos que me visitavam perguntavam invariavelmente quem era aquela personagem e por que razão ali estava. Eu começava por dizer o seu nome, o que fez e pensou e terminava dizendo que estava ali, de frente para a minha cadeira, porque Artur Pinto Bastos era o fafense que eu gostaria de ser e que ainda não consegui. Daí estar ali, a marcar-me a linha do horizonte.

Isaura era sua filha. Generosa e simpática, destemida e comprometida com o seu tempo. Estava nos momentos todos em que a nossa terra expressava a sua vivacidade. Escrevia sobre isso, amparava todos os gestos que levassem a um passo em frente. Acolhia os mais novos. Dava-lhes espaço, dava-lhes colo, dava-lhes oportunidade.  Foi no seu jornal que tive o meu primeiro grande confronto político e jornalístico com um anónimo que, noutro jornal, me atacava de forma reacionária e despudorada. Eu tinha 17 anos e o anónimo ainda devia ser fascista. O Desforço foi o meu primeiro jornal. Jamais esquecerei a alegria que tive em ver ali os meus textos.

Este dia, em que começo a participação num novo projeto sobre Liberdade, bateu-me essa memória e a saudade de a ter pelas ruas da minha terra. Até saudades de perguntar a quem estava ao nosso lado, se, após o seu cumprimento, a nossa face ficava marcada pelo seu rubro e nunca abandonado bâton.


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