AS IDAS À GALIZA
Em nossa casa, ainda durante a ditadura, havia sempre uma garrafa de brandy Pedro Domecq e uma de licor Pisca.
Vinham ambas das idas à Galiza, o que ocorria duas a três vezes por ano na companhia dos meus tios e primos.
As senhoras bebiam o licor e esse durava, no mínimo, um a dois anos, enquanto o brandy se consumia com outra rapidez.
A memória mais romântica que guardo dessas bebidas é a tensão que sentíamos no regresso ao sermos revistados na fronteira pela Guardia Civil, que tinha dos mais antipáticos agentes de segurança que pude conhecer. Trazíamos uma garrafa de cada uma destas bebidas, uns caramelos e duas garrafas de gasosa La Pitusa, parecendo que estávamos a traficar diamantes.
As idas a Espanha tinham esta ambiência e isso fazia parte da ideia de viagem. Atravessávamos duas ditaduras, duas civilizações, íamos com a maravilha que a lonjura sempre proporciona e depois voltávamos.
A Galiza era longe, muito longe. Nunca mais voltaremos a esses lugares. Nunca mais seremos estrangeiros dessa forma.
Só tenho saudade de sentir a distância assim e dos que íamos e já não estão. Tudo mais foi uma tremenda vitória da civilização contra a repressão. E como o brandy e a gasosa ainda existem pode-se sempre brindar, matar saudades e celebrar por não termos a Guardia Civil a remexer-nos a mala do carro e a nossa tão amada liberdade.



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