O Jardim de Lourdes Ramalho
para a dramaturga e poeta Lourdes Ramalho, grato pelo seu acolhimento em Campina Grande.
Era um jardim, um viveiro de aves
e uma voz que foi a melodia perfeita.
O meu quase silêncio e a minha infância inteira.
Era a palavra antiquíssima e nova
a ser no meu ser a desregrada regra.
Guardei-a como as crianças guardam um segredo
que por assim ser dura a vida inteira.
Era o que eu precisava para ser o que eu era.
O seu dizer num Sertão que quis a vida toda,
a quietude que revi nas suas árvores
que eram árvores e sombra e recorte de luz
em sua voz tão de mim que o silêncio guardava.
E é ainda, por ser no tempo a saudade de tudo
e nesse tudo a brevidade que o tudo é.
Tenho um coração exilado para sempre
em seu quintal de Campina
e aí planto a árvore que não sou,
a sombra que me fala na luz que não entendo e que me é.
Pergunto, querida Lourdes, pela quietude da tarde
e sei-a infinita por vir de si a minha voz de tudo,
o que me faz chorar ainda hoje por me perder
no que sabe do mundo
que sendo seu
é o de todo eu que consegui dar
e que por ser seu esse dar espalhou
no que dar fui conseguindo
a razão infinita, o justificado amor
pelo que o amor possa justificar alguma vez.
Era um jardim, um viveiro de aves
e uma voz que foi a melodia perfeita.
Era o que será.
E, se Deus fosse, milagre seria
que por ser gente de quieta voz partiria
para o que mundo desamarrando
fazia seu e não sabia.



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