Receber o tempo.
Receber o tempo. Olhar em volta e esperar pelo que já foram as cidades. As cidades regressam-te e fazem com que sejas sempre a parte de ti que desconheces e que recebe no novo o que nunca soubeste do que julgaste antigo.
O mistério que envolve o nosso passado no nosso presente é o mais verdadeiro mistério das nossas vidas. Somos a confluência entre as memórias que guardámos com o que nos espanta no momento presente mais o que no presente transforma o que a memória foi num novíssimo corpo que é o do instante que se está a viver agora.
Dito de outro modo, todo o passado morre, sobrevivendo apenas o que, significando no presente, por este se transforma em outra coisa que passado não é. O amor não é a lembrança do amor, um filho não é a sua lembrança e uma palavra de antigamente nunca mais é o que antigamente fora, pelo menos em nós.
Gostava de ser matemático e fazer esta que seria a mais bela das contas: o que se subtrai ao que se viveu pelo esquecimento ou pela indiferença? E o que se volta a somar ao significado presente do que restou da conta inicial da memória entretanto subtraída mas com saldo ainda? Que números seriam esses? Que nomes seriam esses? Que infinitos seriam?
Receber o tempo. Olhar em volta e esperar pelo que já foram as cidades. Sair por este tempo e sentir uma muito bela comoção por saber que estaremos a morrer, mas antes disso, ainda havemos de viver, de viver como se tudo parecesse eterno e tudo pudesse regressar um dia, só não sabendo nós o quê e por que razão.


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