Começos



Às vezes começo a manhã a ler o diário argentino «Clarin». Porque há dias em que tudo começa melhor com uma escapada emocional até uma Buenos Aires que existe para lá das geografias concretas, que existe no lado de dentro do coração viandante que cultivo desde que me conheço e onde me cruzo com a luz que antecedeu os tangos de Gardel, mas também de Piazzola, onde procuro as sombras de Borges e as suas infinitas questões sobre os dias do mundo. Às vezes começo-me estrangeiro por amar demasiado o meu chão, para poder vê-lo de longe e entender a fundura das suas coisas que são tão rentes. Às vezes, muitas vezes, parto. Parto para aprender sobre o que fica.
Esta manhã, o Clarin falava da morte do poeta mexicano Alí Chumacero que dizia do ofício de poeta:« Nuestro oficio consiste en hacer creíble lo increíble, en hacer inverosímil lo creíble “. Abro o dia com esta inquieta missão que não é exclusiva de quem escreve, mas de quem vive. E regresso, como regressava em pequeno ao corredor do lado direito da Igreja de S. José, na minha terra, para contar a Deus as letras que já sabia juntar antes de entrar para escola. Regresso ao meu lugar para começar o dia com esta espécie de jura: nunca pararemos de tentar encontrar o que nos falta, mesmo que essa parte seja, sobretudo, o que não fazemos a mínima ideia que possa existir.

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