Martins da Avenida - 1
Os perfumes
Na loja do meu avô, «Martins da Avenida», entre outros produtos vendia-se perfumes. Uma das marcas era a clássica água de colónia Lavanda, da Ach Brito. Uma das memórias interessantes que guardo desse tempo era a das freguesas com menos recursos que compravam perfume por medida. Traziam um pequenino frasco que o Joaquim enchia com um funilzinho de metal, até transbordar, sendo que o perfume a mais era apanhado pelo lenço que as freguesas colocavam em torno dos frascos, certas de que transbordaria, certas da habitual generosidade do Joaquim. Interessante esta estratégia e o facto de imediato esfregarem o rosto e o pescoço com aquele excedente, desabafando de pronto: hoje já não gasto do que vai no frasco.
A Loja tinha este perfume, não só o das garrafas de Ach Brito, mas o perfume que os sorrisos das pessoas deixavam quando lá iam e aconteciam coisas destas. Essas pessoas que contavam de onde vinham, a que vinham, o que tinha custado a vida. As pessoas que perguntavam por nós e nos mandavam saudações, as pessoas a que estávamos ligados pela admiração que sempre mantivemos por quem se esforça com dignidade pelo seu lugar no mundo. A Loja era uma riqueza para mim, por me dar, em tão tenra idade, tantas histórias, tantos exemplos, tanta realidade e tanta diversidade.
Vinham comprar perfumes
e eram flores essas mulheres.
Flores de montanha.
Flores da altivez que só a coragem
e a doçura conseguem.
Vinham comprar perfumes
e deixavam sempre o mais memorável aroma
que só a distância que me abria no coração
era capaz de espalhar pelos invernos que ainda me faltam
e que vêm desse tempo.
Vinham comprar perfumes
e eram flores essas mulheres.
Flores de inverno, flores de montanha,
flores das flores que Deus plantou no embalo do mundo
e só aí.




Comentários