As comunhões na Vila
(esta foto é da década de 30, no dia da comunhão solene do meu pai)
Na Vila, as procissões das comunhões eram muito frequentadas, não só pelas crianças que cumpriam este sacramento, mas também por familiares e amigos que as integravam, ou que esperavam nas suas varandas para as ver passar. No meu tempo, usava-se levar um ramo de gladíolos brancos para oferecer a Nossa Senhora assim que chegássemos à Igreja Matriz ao fim da tarde, vindos da Igreja Nova de São José. As procissões eram cantadas e rezadas. A oração mais difícil de decorar era a Salvé Rainha. Ainda, hoje, a não sei. E nós lá íamos, centros de uma festa que não era bem nossa, mas da comunidade.
A diferença entre o nosso aniversário e a comunhão era a questão do colectivo, pois quase não podíamos convidar os amigos da mesma idade para vir à nossa festa, uma vez que eles estavam a participar na deles. O peso da Igreja também era enorme. Aquela festa era para nós, mas significava um certo juramento que nós prestávamos à religião. Era muito solene e muito formatada, o que nos deixava sempre uma certa incapacidade de apropriação absoluta. Mas isso não era mau. Havia um interesse grande nesta solenidade nos tenros anos. Raramente uma criança é solene. E aquilo levava-nos a experimentar a solenidade e a participar em nosso nome numa causa onde só nós e a instituição estávamos envolvidos. Os pais interferiam pouco no acto em si, pelo menos na sua centralidade. A nossa comunhão era nossa e da nossa Igreja. E isso dava uma certa independência ao acto. O que era interessante.
Quantas pessoas não terão nestes momentos as suas únicas experiências com as solenidades? E de algum modo, entre ricos e pobres, pelo menos na aparência, nesse dia parecíamos todos iguais. É que no meu tempo, quer na primeira comunhão quer na comunhão solene as crianças vestiam-se de igual o que encurtava naqueles momentos as diferenças. Em minha casa, comíamos vitela ou cabrito assado. Tínhamos bolo da comunhão à sobremesa e umas prendas a que não dávamos o devido valor pois estavam muito centradas nos sacramentos. A minha amiga Rosa Maria deu-me, na primeira comunhão, um pequeno missal que ainda conservo no meu quarto. Usei-o muito. Quando vinha da missa das sete, celebrada pelo padre Zé de Ribeiros, conhecido pelo padre «Zé da burra», parava em frente ao portão da Loja Nova, tirava dos bidões de cal as crostas fininhas que se criavam e levava-as para casa. No dia seguinte, sentava os bonecos em fila, colocava uma toalha nas costas e celebrava com o missal uma Eucaristia. As hóstias eram feitas das lâminas de cal. Nessa altura queria ser padre. Depois passou-me a vontade. Mas o missal da Rosa Maria e o terço em prata que a minha madrinha me deu ainda os conservo como duas imagens felizes do meu tempo das comunhões.
A Igreja Matriz tem sido palco para muitos momentos, na sua esmagadora maioria tristes, até pelo facto de lá ir sobretudo a funerais. Mas mesmo assim, aquela será sempre a Igreja da minha primeira comunhão e do dia em que levei um ramo de gladíolos brancos a Nossa Senhora, o dia em que o sr Abel do Foto Jóia registou para sempre esse momento, e no meio de todas as solenidades, com uma fé muito confusa, eu tive um momento de sincera intimidade e gostei muito de oferecer as flores à Virgem Mãe, fazendo para sempre também minha a velha Igreja onde, mesmo nos momentos mais duros, me sabe sempre a amparo, a felicidade e a retorno o estar ali.



Comentários