Alfredo Margarido

Aguarela da autoria do Prof. Alfredo Margarido
Soube, pelo Expresso, da morte do Professor Alfredo Margarido, um nome maior das nossas letras, do ensaísmo literário, especialmente das letras africanas, um tradutor dos mais consagrados escritores à escala mundial, Professor de Socilogia em Portugal, na Unversidade Autónoma de Lisba e em Paris na Sorbonne.

Alfredo Margarido foi meu Professor de Sociologia, na cadeira de Classes Sociais. E ensinou-me muito daquilo que é o sentido mais fundo desta Ciência. Ensinou-me o sentido. E aprender o sentido das coisas significa estar apto para aprender os aspectos técnicos e as conquistas epsitemológicas, significa estar-se apto para tomar o pulso aos batimentos do que se estuda. Conquistado isso, todo o resto é só esforço, é só trabalho.

O Homem que convencia o mítico Alain Touraine a acompanhá-lo nas feiras de Paris para sentir o povo na sua forma mais real e no seu pulsar mais fundo. O comunista que lamentava as mortes da Primavera de Praga. O Humanista que nos mostrava sem reserva a necessidade da não propaganda no discurso científico para explicar e contribuir para o verdadeiro desenvolvimento das sociedades.

Os meus colegas de curso diziam-me que eu era dos poucos alunos que ele respeitava. Não seria o caso. Mas o que ele provavelmente sentia é que das nossas conversas no final das tardes de Terça-feira, quando vinha de Paris a Lisboa para nos ensinar, as minhas questões tinham na sua origem a vontade de conhecer e nos comentários que fazia reconhcia-me a seriedade intelectual de tentar contextualizar o que dizia com o pouco que sabia. Era só isso. Mas sabia-me bem essa relação e eu percebia o privilégio que era tê-lo disponível para me ensinar para lá das horas de aula.

O Professor Alfredo Margarido era um monumento para nós. Faláva-nos do conhecimento com o sofrimento e a alegria que só quem o experimenta entende, seja a que nível for. O conhecimento dói. Como a verdade. Como a rectidão.

Esta notícia da sua morte entristeceu-me mais do que poderia contar. A Sociologia que aprendi com ele estará diferente. Nunca mais será a mesma. Ele era um duro, mas um duro que nos apontava o mais acolhedor dos destinos: a sempre temporária verdade. A verdade conquistada com a seriedade e a independência que se nos exige. Ele não era muito afável, mas fazia-nos chegar à afabilidade que tem o degrau a seguir do conhecimento.

Uma vez disse-me para nunca desistir. E que acreditava que era possível e que eu seria capaz. Daí os colegas dizerem que ele me respeitava.

 Apetece-me dizer-lhe, hoje, como dizem os velhos: cá vamos teimando Professor, cá vamos teimando. Graças também a si que passou a ocupar um dos lados do meu espelho matinal, aquele onde me confronto diariamente e onde muito poucos estão do lado de lá a questionar, a confrontar, mas também a dar força. Cá vamos teimando, Professor!

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