Saramago

Nos momentos felizes dos sítios, registo um momento que as paredes da velhinha sala de conferências da Casa da Cultura guardarão para sempre: o olhar apaixonado de Saramago para Pilar quando nos visitaram há muito anos. Não posso jurar se foi o tempo todo assim, mas naqueles instantes em que Saramago nos falava dos seus livros, fê-lo muitas vezes com o coração nos olhos do coração da sua derradeira companheira. E isso não se esquece.


No Hotel do Elevador, em Braga, nos finais de 1998, eu, o pintor César Taíbo e o compositor Nelson de Quinhones, celebrávamos com um burbon a chegada do meu primeiro livro «O Lugar dos dias», um livro com poemas meus e os magníficos «Oráculos de Paris» do César. Durante este encontro, chegavam para a Feira do Livro José Saramago, Clara Ferreira Alves e José Manuel Mendes. O César, pintor a tempo inteiro, foi falando connosco e desenhando Saramago. No final, ofereceu-lhe o desenho.

Anos mais tarde, vimos registo desse gesto nos «Cadernos de Lanzarote», sem que Saramago soubesse a quem agradecer, uma vez que o desenho não estava assinado. Fica assim fechado o processo: o resto do texto que falta aos Cadernos fica publicado aqui: César Taíbo.

Estas duas memórias de Saramago, no momento da sua morte, aconchega-me a perda, eu que sempre tive por ele uma relação de profundo respeito e admiração, mas também de proporcional irritação com um ou outro gesto que me pareceram caprichosos. Dizia-me uma amiga: ele tinha direito a isso. Eu rspondi-lhe: tinha, como todos nós temos, porém dói mais quando se trata daqueles a quem mais queremos e a quem mais depositamos a esperança de puderem transformar o mundo.

O Portugal sem a voz de Saramago não será igual. Mas não o perdemos. Nunca mais o perdemos. Cada ilimitado nos seus livros, será para sempre o ilimitado que demos ao mundo com o seu génio. E, aí, sem margem para dúvida um enormíssimo e comovido, obrigado Saramago.

Comentários

António Daniel disse…
sou um leitor tardio de Saramago. A partir de 92, mais ou menos, viajei pelos seus livros. o que antecedeu a minha admiração pela sua palavra foi a sua coragem demonstrada aquando do lançamento do Evangelho...Fui vê-lo a Braga, em pleno coração eclesiástico. A forma descomprometida e corajosa como falou levou-me a esquecer alguma característica pessoal que menos apreciei. Depois, bom, depois li o primeiro capítulo do Memorial... e deparei-me com o sublime sob a forma de palavra. O que não sabia era da sua vinda a Fafe. Fica para a próxima...

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